Uma banda com a cara, a sonoridade e o jeito amazônico. Assim podem ser definidos os Tucumanus, que mergulham no universo regional para contar histórias do cotidiano e da cultura local por meio da música.
LEIA TAMBÉM: Príncipe do Brega, Nunes Filho celebra 40 anos de carreira e o reconhecimento do público
A identificação é tão forte que aparece já no nome: uma junção de tucumã, fruto tradicional do X-caboquinho, com a expressão “mano”, comum no vocabulário popular. O resultado sintetiza a proposta da banda: um som que nasce da vivência amazônica e se abre à mistura de ritmos, consolidado no que eles definem como “regional experimental”.

São 20 anos de estrada e um jeito próprio de fazer música, baseado na mistura de estilos e na experimentação. Essa identidade foi sendo construída ao longo do tempo e aparece em músicas como “Serpenteia”, “O Boto”, “Churrasco de Gato”, “Tudo em Comprimidos” e “120 Ponta Negra”.
As primeiras ideias surgiram ainda em 2001, em um processo que levou anos até se consolidar. A banda só ganharia forma em 2006, com a união de Denilson Novo (guitarra e voz) e Clóvis Rodrigues (vocal), que estão até hoje, e Maurício Pardo. Antes disso, foram anos de composições e amadurecimento – uma “gestação”.

No início, todos tinham forte ligação com o rock’n’roll, mas já existia o desejo de ir além. As influências amazônicas, presentes na vivência cotidiana, passaram a ganhar espaço nas composições, junto com a proposta de experimentar ritmos e construir uma sonoridade própria, conectada com a realidade local.
De lá para cá, os Tucumanus passaram por diferentes formações, fizeram shows para públicos de diferentes tamanhos (de Manaus a Nova Iorque), estabeleceram parcerias ao longo do caminho e mantiveram uma característica central: a abertura para experimentar. Cada fase trouxe novas camadas ao som da banda, sem perder a essência construída desde o início.

A formação atual da banda conta com Denilson Novo (voz e guitarra), Clóvis Rodrigues (vocal e efeitos percussivos), Mario Ruy (baixo e voz), Dayan Winicius (guitarra e voz), Matheus Simões (bateria), Igor Brasil (percussão), Álvaro Nascimento (trompete) e Francirbone (trombone).
Para falar sobre essa trajetória, desafios, conquistas e as peculiaridades da banda, o Rolê Cultural bateu um papo com Denilson Novo, um dos fundadores e integrante desde a primeira formação.
Entrevista com Denison Novo (guitarrista e voz), um dos fundadores da banda Os Tucumanus
Rolê Cultural: Os Tucumanus chegam aos 20 anos. Que momentos ajudam a explicar a construção dessa trajetória dentro da cena independente de Manaus?
— Acredito que Os Tucumanus, desde a fase embrionária, já estava com os ideais e objetivos muito bem definidos, o que ajudou muito no caminho a seguir. Foram 5 anos de composições e gestação, desde meados de 2001, para então nascermos como banda somente em 2006, com a chegada do vocalista Clóvis Rodrigues que também trouxe consigo novas composições ao repertório e, juntos, fomos somando mais e mais composições ao longo do tempo.
— Todos viemos de outras bandas e um histórico enraizado no Rock’n Roll. Porém, estava também presente na vida de todos nós as influências de sonoridades amazônicas ouvidas e assimiladas desde o berço. As ideias propostas trazidas pelo filósofo e co-fundador da banda, Maurício Pardo (vulgo: Jabá), caiu como uma luva ao desejo de todos de explorar novas sonoridades e experimentar diferentes ritmos e pegadas musicais com temáticas sobre o nosso cotidiano urbano e regional amazônico.
— Assim fomos fluindo e seguimos nosso caminho. O público crescente e o feedback de outras bandas, amigos e parceiros de labuta na arte foram sinais que a coisa estava indo bem. Acredito que a entrega às verdades que nos inspiram estão presentes nas letras e canções que apresentamos e o combustível que nos trouxe até aqui tem uma boa mistura de amor à música, ousadia, cumplicidade, perseverança e muita persistência na arte que alimenta nossas almas. E lá se vão duas décadas de Tucumanus nessa estrada.

Rolê Cultural: A banda tem uma sonoridade híbrida, que mistura rock, reggae, ska e referências amazônicas. Como essa identidade foi sendo construída ao longo do tempo?
— Particularmente eu tenho muita dificuldade em definir o estilo que adotamos, pois além desses ritmos que você citou, eu acrescentaria também o funk, maracatu, reggae, jazz, carimbó, baião, guitarradas etc. A solução mais simples que encontramos sempre foi utilizar o mesmo termo que intitula nosso primeiro disco: Regional Experimental.
— Desde o início do projeto nos propomos a isso. A construção das canções e repertórios, sempre autorais, foram se consolidando e acontecendo de acordo com cada fase da banda. Nesses 20 anos, muitos músicos tocaram conosco e deixaram suas marcas na nossa trajetória. Da Formação original, estamos eu e o vocalista, Clovis Rodrigues. E, há cerca de 10 anos, estamos também com o baterista, Matheus Simões, além do baixista, Mário Ruy. Aí vem os demais que também já estão conosco há anos. Mas o que quero dizer é que, em cada momento e formação, imprimimos novas músicas e também releituras na interpretação de canções presentes desde o início da história dos Tucumanus. Nossa construção é visceral, autêntica e condiz com a época em que vivemos. Eu, por exemplo, tinha vinte e poucos anos quando tudo começou. Hoje, já estou com 46. É natural ressignificarmos muita coisa ao longo do caminho. E como o experimentalismo faz parte do DNA da banda, pra gente, certas mudanças são muito naturais, mesmo mantendo a essência que nos une e nos trouxe até aqui.
Rolê Cultural: As músicas trazem elementos muito ligados ao cotidiano e à cultura local. O que define o “olhar” dos Tucumanus sobre a Amazônia?
— Somos todos amazonenses compostos de elementos naturais da Amazônia. Trilhar qualquer caminho que desconsiderasse isso seria, no mínimo, incoerente com as nossas verdades. Nosso olhar é de quem vive nessa região e busca expressar as impressões que temos da vida e de tudo o que encontramos por aqui e também daquilo que colecionamos de experiência pelo Brasil e pelo mundo. Tá tudo interligado e a peculiaridade está presente no modo como cada um interpreta tudo isso. Acredito que os Tucumanus são como um caboco nativo que se vira bem onde vive e observa muito as transformações do mundo à sua volta sem se arvorar em se aventurar à toa ou largar suas raízes diante das novidades sedutoras do caminho. A gente vai somando o que nos interessa e cantando aos ventos o que sente diante de tudo isso.

Rolê Cultural: Em um cenário historicamente concentrado no eixo Sul-Sudeste, quais foram os principais desafios para os Tucumanus ampliarem o alcance do trabalho?
— O maior desafio de qualquer músico ou artista nortista é ainda a invisibilidade diante de olhares obtusos que ainda não descobriram o prazer e o privilégio da cultura, da vida e de todas as artes de quem vive por aqui. Vai chegar um momento em que as artes produzidas na Amazônia vão virar essa mesa e muita coisa vai acontecer, não tenho dúvidas disso. Até lá, seguimos fazendo a nossa parte do jeito que dá. Nessa trajetória de 20 anos tivemos lindos capítulos que misturam coragem, persistência e uma dose generosa de boa sorte por encontrar pessoas que nos ouvem e se interessam pelo som que fazemos e verdades que defendemos. E assim, vez ou outra, acontece o milagre de alguns pontos fora da curva e algumas furadas de bolha que nos levaram a grandes palcos do Brasil e do mundo. Mas costumo dizer que ainda temos muito o que conquistar dentro de casa. Vamos em frente!
Rolê Cultural: Ao longo dessas duas décadas, o que mudou na forma de produzir, circular e se manter como banda independente?
— A única coisa que não muda é a condição de mudar. Mas aqui posso destacar a natural maturidade de entendermos que o sucesso é muito relativo e que fazer algo que você realmente gosta e se entrega de verdade, faz toda a diferença. No fundo, é o que verdadeiramente importa e nos alimenta. Quando acontece um reconhecimento ou valorização do público e produtores de eventos que se interessam pelo que fazemos, claro que isso nos fortalece e renova nossos ânimos. Estamos de portas abertas para o que puder somar e fazer nosso som reverberar para mais e mais pessoas. Mas, independente de tudo isso, no fim das contas, fazer algo de verdade e registrar isso na história das nossas vidas pessoais dentro desse projeto e caminho, é o que há de mais valioso. Todo o resto é consequência disso.
Rolê Cultural: Houve algum momento específico que marcou uma virada para os Tucumanus — seja de público, reconhecimento ou maturidade artística?
— Em vinte anos de história eu poderia contar muitas passagens que certamente impactaram e nos fizeram mudar, amadurecer etc. Mas posso destacar aqui a energia que temos juntos no palco e que nos motiva a seguir em frente, corrige rotas e causa transformações que naturalmente acontecem até nos firmamos novamente nos trilhos que nos engrandece. Além disso, alguns episódios marcantes, tais como: a gravação do primeiro e segundo discos, coletâneas que circularam no Brasil e no mundo (principalmente Europa), o show no evento de 350 anos dos Correios que nos deu a oportunidade de nos apresentarmos para 25 mil pessoas, ao lado de Gaby Amarantos, em Manaus. Esse foi maior público para o qual já nos apresentamos, até então, em um show em nossa própria cidade. Que mais? A experiencia de tocar em festivais e grandes centros culturais como São Paulo e Nova Iorque, proporcionando experiências ímpares em nossa trajetória, além de interagir com outros artistas da Amazônia, do Brasil e do mundo, que sempre tem algo a nos acrescentar. Principalmente, no sentido de nos reconhecermos e trabalharmos cada vez mais no fortalecimento da nossa própria identidade.
Rolê Cultural: Pensando no presente e no futuro, que caminhos os Tucumanus ainda querem explorar — seja em termos de sonoridade, circulação ou posicionamento artístico?
— A gente quer gravar mais e escoar as composições da banda que ainda não demos conta de registrar com qualidade para eternizar em fonogramas. No mais, estamos bem felizes de ter sobrevivido até aqui. O que vier a mais tá no lucro. E que venha muito mais!!! kkkk
Rolê Cultural: Você é um dos fundadores da banda e também faz show solo. Como concilia e diferenciar para o público você da banda?
— Está tudo interligado. São trabalhos distintos feitos por um mesmo trabalhador. Tenho tocado e gosto de tocar em bares e restaurantes fazendo interpretação de músicas que gosto de ouvir, tocar e cantar que vão muito além do repertório dos Tucumanus. Isso me ajuda a estar mais presente e em contato com o público, me mantém em constante atividade musical e, principalmente, ajuda e muito a pagar as contas do dia a dia. Fora isso, dedico-me também às produções audiovisuais e projetos de comunicação, marketing e publicidade que estão inclusos no pacote. Na minha humilde opinião, tá tudo junto e misturado no mesmo balaio das artes. Todas somam e muito no caminho que sigo em busca de me equilibrar para viver de maneira digna e com todas as felicidades possíveis nesse mundo.
Serviço – Onde acompanhar Os Tucumanus
- Contato profissional: disponível nas redes sociais oficiais da banda.
- Streaming: Spotify, Deezer, Apple Music e YouTube Music
- Instagram: @tucumanus
- YouTube: canal oficial Os Tucumanus
- Principais trabalhos: repertório autoral com músicas como “Serpenteia”, “O Boto” e “Churrasco de Gato”
- Projetos em destaque: shows autorais, festivais e circulação nacional e internacional
- Atuação artística: música autoral, shows e participação em eventos culturais



