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Mês do Orgulho LGBTQIAPN+: entre armários e liberdades. Assista “O Segredo de Brokeback Mountain” e “Reino de Deus”

Mês do Orgulho LGBTQIAPN+: entre armários e liberdades. Assista “O Segredo de Brokeback Mountain” e “Reino de Deus”
Mês do Orgulho LGBTQIAPN+: entre armários e liberdades. Assista “O Segredo de Brokeback Mountain” e “Reino de Deus” (Fotos: Divulgação)

As indicações de filmes com temáticas LGBTQIAPN+, iniciadas no começo de junho, não têm a pretensão de destacar produções que estrearam recentemente nos cinemas ou nos serviços de streaming, mas sim de apontar filmes que possibilitem reflexões sobre temas transversais que marcam a vida. Afinal, o cinema, seja do passado ou do presente, constitui um importante instrumento de reflexão sobre a sociedade.

Na vida real, a sociedade impõe que homossexuais manifestem seu amor na clandestinidade. Há dois filmes que nos permitem refletir sobre essa condição. Um deles é “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005); o outro é “Reino de Deus”(2017). Ambos retratam, em contextos distintos, os desafios enfrentados por pessoas que eram forçadas a viver seus afetos sob o peso do preconceito e da repressão social.

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“O Segredo de Brokeback Mountain”, dirigido por Ang Lee, tem inúmeras razões para ser lembrado – e, eu diria, lembrado por bons motivos. Trata-se de uma produção que reúne um roteiro excepcional, atuações marcantes e uma direção que somente um cineasta muito talentoso consegue conduzir. Além disso, a história realmente convida o espectador a acompanhá-la até o fim.

A esta altura, falar de alguns acontecimentos do enredo já não pode ser considerado exatamente um spoiler. O filme foi lançado em 2005 e, passados mais de vinte anos, tornou-se uma referência quando se fala em cinema e representações LGBTQIAPN+.

Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennis Del Mar (Heath Ledger) se conhecem quando conseguem trabalho em um rancho na montanha de Brokeback, onde passam uma temporada cuidando de ovelhas durante o período de pastoreio. São duas pessoas muito diferentes, mas que compartilham algo fundamental. Esse ponto em comum só se revela quando ambos permitem uma aproximação afetiva, carinhosa e também sexual.

Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennis Del Mar (Heath Ledger)
Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennis Del Mar (Heath Ledger) são os persongens do film (Foto: Divulgação)

A partir daí, os encontros na montanha tornam-se oportunidade para reconhecer seus sentimentos e viver um amor que não encontram lugar para expressar na sociedade em que vivem. A montanha de Brokeback passa a ser o único refúgio onde podem existir plenamente como casal.

Entretanto, conciliar esse amor verdadeiro com a vida social que cada um levava era um desafio repleto de obstáculos difíceis de superar. Inseridos em uma sociedade profundamente machista e homofóbica, ambos mantêm casamentos heterossexuais e constituem famílias, encontrando-se apenas esporadicamente ao longo de muitos anos.

O relacionamento é interrompido pela morte de Jack, apresentada pelo filme de forma ambígua. Embora a versão oficial seja a de um acidente, permanece a suspeita de que ele possa ter sido vítima de violência motivada pela homofobia. Essa incerteza reforça uma das reflexões centrais da obra: os efeitos da intolerância sobre vidas que foram obrigadas a existir na clandestinidade dos sentimentos.

É muito possível que “O Segredo de Brokeback Mountain” também seja lembrado não apenas por suas qualidades cinematográficas, mas também por apresentar uma história de amor que, apesar de intensa e verdadeira, não encontra espaço para um final feliz. É um filme que continua a provocar reflexões sobre desejo, liberdade, mas também sobre preconceito e as consequências de uma sociedade que insiste em determinar quais amores podem ou não ser vividos.

O segundo filme é “Reino de Deus” (2017). Dirigido por Francis Lee, a produção também mostra dois homens bastante diferentes entre si que, a princípio, mantêm certa distância. Com o avançar da história e à medida que se permitem aproximar um do outro, passam a se conhecer melhor e a compreender a própria sexualidade, descobrindo tudo o que ela pode proporcionar para além dos limites impostos pelo preconceito e pelas convenções sociais.

Johnny (Josh O’Connor) é um jovem fazendeiro que vive com os avós e cuida da fazenda da família. Com o avançar da idade de seus familiares, ele se vê exausto, sobretudo pelo aumento das responsabilidades com o trabalho. Para aliviar suas tensões, Johnny encontra refúgio no álcool e em relações casuais, sem criar vínculos duradouros, nem mesmo de amizade.

Quando chega a época mais intensa de trabalho, a família decide contratar uma pessoa para ajudar e aliviar a sobrecarga de Johnny nas atividades da fazenda. Nesse momento, entra em cena o imigrante romeno Gheorghe (Alec Secăreanu), experiente no trabalho rural.

O Reino de Deus
Produção mostra dois homens bastante diferentes entre si e, com o avançar da história, se aproximam (Foto: Divulgação)

A relação entre ambos, no início, é conflituosa e, aos poucos, assim como Jack e Ennis, de “O Segredo de Brokeback Mountain”, eles permitem a aproximação um do outro. E as cenas que seguem são lindas, pela paisagem, pelo romance e pela possibilidade de viver a paixão que um sentia pelo outro, que, aos poucos, se confirmava em gestos, olhares e afetos.

Interessante ressaltar que as cenas de sexo estão ali muito mais para mostrar a construção da intimidade e do vínculo entre os personagens do que propriamente o aspecto erótico. É também lindo ver como ambos enfrentam suas dificuldades, superando desafios pessoais e inseguranças.

Neste momento, é possível que a resenha apresente alguma informação antecipada, especialmente aos espectadores que ainda não assistiram à história de Johnny e Gheorghe. Mas é preciso destacar que o armário que guarda a camisa de Ennis em “O Segredo de Brokeback Mountain” – dispositivo simbólico para representar o aprisionamento do amor – ficou para trás, e hoje é “purpurina que grudou no corpo para não sair nunca mais”. A metáfora da purpurina, que certa vez ouvi em uma palestra de Erika Kokay, serve para dizer que esconder-se ficou – e deve permanecer – no passado; o presente é para ser vivido com intensidade, verdade, resiliência e alegria.

Assista e reflita sobre a história dos dois filmes.

FICHAS TÉCNICAS

“O Segredo de Brokeback Mountain”

  • Título original: Brokeback Mountain
  • Ano de lançamento: 2005
  • País: Estados Unidos
  • Direção: Ang Lee
  • Roteiro: Diana Ossana, Larry McMurtry.
  • Elenco principal: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams e Anne Hathaway
  • Gênero: Drama

“Reino de Deus”

  • Reino Unido; 2017
  • Direção: Francis Lee
  • Produção: Manon Ardisson, Jack Tarling
  • Roteiro: Francis Lee
  • Elenco: Josh O’Connor, Alec Secăreanu, Gemma Jones, Ian Hart
Fale com o autor: [email protected]

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