Um dos maiores fatos da existência humana é a morte. É natural, com o passar do tempo, perder entes queridos que são mais velhos. Mas quando essa perda é de um filho? Existe uma regra ou uma forma para viver esse luto? Não acredito que seja spoiler começar esse texto falando que sim, Hamnet dirigido por Chloé Zhao é uma obra que vai retratar o luto, mas muito antes disso, o amor, a família. O filme, que soma sete indicações ao Oscar 2026, incluindo a categoria de melhor filme, retrata de uma forma poética e íntima umas das mais conhecidas obras de William Shakespeare.
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Estrelado por Jessie Buckey (Agnes) e Paul Mescal (Shakespeare), a obra é baseada no romance homônimo de Maggie O’Farrell, narrando o início da história de amor do casal, o casamento, nascimento dos filhos até a trágica morte de Hamnet, único filho homem de William e Agnes. Eles também são pais de Susanna e Judith. Na obra de O’Farrell, Shakespeare teria feito o luto de Hamnet escrevendo Hamlet, como seu processo de dor e cura diante da perda.
Apesar de aqui estar no papel de Shakespeare e mesmo entregando uma atuação inspirada, Paul Mescal fica em segundo plano na trama de Zhao. Todo protagonismo é de Jessie vivendo Agnes, uma mulher misteriosa, ligada à natureza e cheia de convicções firmes. Desde a primeira cena, percebemos que vamos acompanhar sua história, ou pelo menos, uma parte dela.

A obra é cheia de simbolismo e beleza, desde a floresta, a casa do pai de William, a escolha da trilha sonora instrumental e até mesmo o silêncio em cenas importantes, todas construídas para criar uma experiência sentimental. Chloé Zhao e O’Farrell, que assinam o roteiro, constroem uma trama que vai evoluindo de maneira lenta, traçando o início do casamento de William e Agnes e até mesmo quando a esposa, após dar à luz a primeira filha, entende que seu marido tem necessidades e precisa sair do vilarejo onde vivem e ir atrás de sua arte em Londres.
O filme vai crescendo na cena do nascimento dos gêmeos Judith e Hamnet e é aqui que Jessie Buckey entrega um dos momentos mais potentes do filme (junto com o take final), de quão soberba é a sua entrega e atuação como a mãe, mulher, como a força da natureza que ela é.

Ao final, Hamnet entrega uma cena final cheia de significado, mas principalmente deixa claro como a arte pode redimir e salvar. Claro que a obra-prima de Shakespeare tem muito mais a dizer que além de luto e perda, mas nessa obra, o que tem peso é isso, os sentimentos, as sensações.



