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“O Diabo Veste Prada 2”: Um é bom, mas dois nem sempre é melhor

Crítica analisa a aguardada sequência de O Diabo Veste Prada e aponta mudanças de tom, personagens menos impactantes e um roteiro que divide expectativas

Diabo Veste Prada 2: jornalismo e moda no foco e qualidade vista no primeiro filme
‘O Diabo Veste Prada 2’ terá sessão CineMaterna nesta terça em Manaus (Foto: Reprodução)

Quando o assunto é cinema, muito ainda se comenta sobre “O Diabo Veste Prada 2” (The Devil Wears Prada 2), lançado no Brasil no final de abril de 2026.

Mesmo para quem não costuma gostar de estreias, que tendem a motivar as pessoas a uma corrida pela garantia da poltrona mais estratégica nas salas de cinema, é quase certo que muita gente tenha tido interesse ou, no mínimo, curiosidade de assistir ao filme, tamanho o alvoroço e a repercussão criados. Tão certa quanto a ansiedade foi a quebra de expectativas.

Novamente dirigido por David Frankel, o filme é uma continuação do longa original, lançado em 2006. O primeiro filme é, de fato, um deleite – uma comédia dramática que dá gosto assistir. Todos os elementos para uma boa produção estão presentes: elenco de peso e grandes atuações, músicas que se adequam às cenas e à narrativa, um bom roteiro e, em particular, um desfile de moda visualmente bem construído, além de despertar em qualquer pessoa a vontade de desfilar pelo corredor de casa ao som de Vogue, interpretada por Madonna. E, claro, a narrativa reserva tensões e competições entre duas personagens colegas de trabalho na tão sonhada Runway, uma revista de moda de alto prestígio, cuja editora-chefe é a temida Miranda Priestly, interpretada com total segurança pela sempre incrível Meryl Streep, indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 2007 pelo papel.

Pré-venda de O Diabo Veste Prada 2 já começou em Manaus
Novamente dirigido por David Frankel, o filme é uma continuação do longa original, lançado em 2006 (Foto: Divulgação)

Apesar de um intervalo de vinte anos entre o primeiro e o segundo filme, a continuação não causou o mesmo impacto. As continuações e novas versões de filmes causam muitas apreensões, sobretudo quando o original surpreende por bons motivos. E, no caso da continuação de “O Diabo Veste Prada”, não faltam motivos para isso. Mas vou economizar alguns para não trazer muitas revelações precipitadas, visto que o filme teve estreia recente e muita gente ainda não o assistiu.

A sequência se passa vinte anos após o primeiro filme, acompanhando o mesmo intervalo de tempo transcorrido na vida real entre as produções. Agora, Andy (Anne Hathaway) é uma jornalista que, apesar de ser uma figura importante, foi demitida do emprego por uma mensagem de texto, juntamente com vários colegas. É certo que, em um mundo em que tudo tem alcance midiático, sua demissão ganhou repercussão pública e, em um intervalo curto, lá estava ela novamente na Runway, desta vez para ajudar Miranda a se livrar de ameaças corporativas à revista. É claro que Miranda, a megera que o público ama odiar e que é a figura mais aguardada do filme pelos fãs, aparece no centro da história, ainda ácida, mas bem menos arrogante e irônica do que o esperado. Há uma justificativa para isso: se em 2006 não havia cancelamentos, em 2026 o risco aumenta potencialmente. E esta é mais uma missão de Andy: ajudar sua novamente chefe a escapar de possibilidades reais de ter sua figura e a revista arruinadas.

Andy e Emily (Emily Blunt) não trabalham juntas desta vez, mas orbitam e se encontram no mesmo universo profissional ligado à revista. Emily, desta vez, trabalha na Dior, que é parceira e influencia em algumas decisões da Runway.
Nigel (Stanley Tucci), sempre elegante, permanece como um dos grandes apoiadores de Miranda. Centrado, ele alerta que os tempos mudaram e os leitores também, que deixaram de ler a versão impressa da revista. Se antes a Runway vendia muitos exemplares, atualmente, restringe-se, pela era digital, à leitura eletrônica.

Esse time completa o elenco central. Mas, para a continuação, a produção também escalou Lucy Liu (As Panteras), Simone Ashley (Bridgerton), Justin Theroux (A Garota no Trem) e Kenneth Branagh (Belfast), todos ótimos em seus papéis, com destaque para Simone, que entrega uma excelente atuação como a assistente de Miranda, cargo anteriormente ocupado por Andy.

Uma vez apresentado o elenco e situados os personagens na narrativa, cabem comentários acerca das atuações e posição de cada um na trama.

A personagem Emily Blunt permanece muito próxima da que já conhecemos em termos de caracterização: ácida, intolerante e mal-humorada, e, após vinte anos, manter essas características e retomar a personagem com consistência é um desafio que ela consegue cumprir bem, o que a torna uma atriz extremamente profissional. Há, porém, uma diferença entre atuação e posição da personagem, que, desta vez, não ganhou muita profundidade na história, tornando-se uma interesseira profissional.

Já Stanley Tucci mantém a essência de seu personagem, preservando, inclusive, algumas piadas e a elegância que marcaram sua atuação no primeiro filme. Sua interpretação continua consistente, reforçando a identidade do personagem. Na trama, ele é responsável pelo reencontro entre Andy e Miranda.

Meryl Streep, uma das atrizes de maior destaque na história do cinema, entrega, desta vez, uma “outra” Miranda. Ainda que se tenha passado um tempo considerável entre as duas histórias e que mudanças de comportamento sejam plenamente possíveis dentro da lógica da narrativa, há uma diferença entre a personagem de 2006 e a de 2026. Na história mais recente, ela parece assumir uma nova configuração, que pode estar relacionada às escolhas de roteiro e, possivelmente, edição. No primeiro filme, ela assediava os funcionários da revista e, no atual, com o cancelamento batendo à porta da revista, há menos cenas em que ela faz isso, pois é monitorada por Andy. Sua presença continua atravessando a trama, mas algumas mudanças influenciam como sua construção dramática se apresenta ao espectador.

Diabo Veste Prada 2 está em cartaz nos cinemas de Manaus (Foto: Divulgação)

Já Andy (Anne Hathaway) é uma personagem que não evolui de forma significativa ao longo da narrativa. Em alguns momentos, apresente escolhas expressivas excessivas em determinadas cenas. A personagem tem relevância dentro da história, mas sua presença não se destaca apenas por qualidades positivas, oscilando entre momentos mais consistentes e outros menos convincentes. Além disso, torna-se bastante previsível que a personagem dela salve a revista, o que é um recurso bastante comum no cinema. Esse ponto pode funcionar como uma possível revelação antecipada para espectadores que ainda não assistiram ao filme.

Também aparece no filme, em uma participação especial, como é descrito nos créditos, a atriz e cantora Lady Gaga. Apesar da presença sempre aguardada pelos fãs, a participação pareceu mais um apelo da produção. E a música (Runway), que compôs para o filme e interpretou em uma cena específica, está longe de emplacar, como aconteceu com “Vogue”, que, para delírio dos fãs de Madonna e do filme, compõe novamente a trilha musical. Mas não é só isso: a personagem de Gaga está deslocada e pouco se sabe sobre ela, exceto pelo fato, pouco explícito, de um passado turbulento com Miranda.

Sequência se passa vinte anos após o primeiro filme (Foto: Divulgação)

Outros nomes importantes aparecem no filme, variando entre estilistas, modelos e cantores: ⁠⁠Marc Jacobs, Donatella Versace, Law Roach, Naomi Campbell e Jon Batiste.

O primeiro filme entrou para a história do cinema por bons e muitos motivos, mas “O Diabo Veste Prada 2” está longe de conseguir esse feito. Espero que o diabo não tenha se arrependido de vestir Prada.

Ficha Técnica:

  • Estados Unidos; 2026
  • Gênero: comédia dramática
  • Direção: David Frankel
  • Produção: Wendy Finerman
  • Roteiro: Aline Brosh McKenna
  • Elenco :
  • Meryl Streep
  • Anne Hathaway
  • Emily Blunt
  • Stanley Tucci
  • Simon Baker
  • Adrian Grenier
  • Música : Theodore Shapiro
*Crítica de William Pereira Santos (Bill)

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