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“Não Existe Almoço Grátis”: quando a solidariedade alimenta a democracia

Poster do Filme "Não Existe Almoço Grátis"
Três Mulheres, Três Histórias. (Foto: Divulgação)

Crítico de cinema tem algumas vantagens, e uma delas é a oportunidade de assistir, antecipadamente, às produções antes de sua estreia no circuito nacional. Esse registro tem apenas a finalidade de compartilhar a minha satisfação ao assistir, em uma cabine de imprensa, ao documentário “Não Existe Almoço Grátis”, dirigido por Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, e, a partir dessa experiência, mobilizar outras pessoas a conhecer e assistir também ao documentário.

A produção acompanha três mulheres negras, Bizza, Jurailde e Socorro, no Distrito Federal. O documentário se aproxima do cotidiano dessas três protagonistas e, por meio de entrevistas, com base na metodologia de história de vida, compreende suas vidas e o envolvimento ativo com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Vale informar que a história se passa na comunidade Sol Nascente, no Distrito Federal, considerada uma das maiores favelas do Brasil. Esse é um dado intrigante, porque uma das maiores favelas está justamente na sede do poder do país, e isso revela o quanto Brasília e seu entorno se tornaram lugares extremamente caros para viver, provocando diversas disparidades entre as pessoas e grupos. Há relatos, inclusive no documentário, de pessoas que têm dificuldade, inclusive, de acessar Brasília. E, embora Sol Nascente esteja geograficamente próxima dessa cidade, o acesso ainda é limitado para essas pessoas, o que revela o quanto elas levam vidas extremamente precárias.

Bizza, Jurailde e Socorro: três histórias, uma luta.

As protagonistas têm histórias diferentes, mas com um centro que proporciona coesão: as dificuldades, marcadas pelo trabalho infantil, pela exposição à violência doméstica e pelo distanciamento da formação escolar, mas também pelo desejo de mudar de vida, conquistando a casa própria, a escolarização e o letramento em questões relacionadas à identidade, ao pertencimento e aos direitos humanos para o enfrentamento das diversas formas de violência, exclusão e negação de direitos.

Bizza tem o sonho de conquistar a casa própria e abrir seu próprio negócio para aumentar a renda. Jurailde aprendeu, desde cedo, a manter conexão com a terra e, até hoje, se conecta com ela, resgatando sua cultura ancestral. Já Socorro descobre o orgulho de si ao formar sua própria família, depois de ter sido abandonada pelo pai na infância.

As primeiras cenas do documentário têm data de 29 de dezembro de 2022, três dias antes da posse presidencial, e as últimas foram registradas no dia 1º de janeiro de 2023, uma data que marca a posse de um governo que traz consigo o retorno da democracia.

Da pandemia à solidariedade

Apesar da primeira data apresentada, com narrativas pessoais, mas de cunho político e social, a produção tem um formato retroativo e resgata o período de um governo (2019-2022) que ficou marcado pelo enfraquecimento da participação social, pela fragilização das políticas públicas e pelos retrocessos democráticos.

Nesse mesmo período, as protagonistas relembram a Covid-19 e o quanto a pandemia em si evidenciou ainda mais as desigualdades entre as pessoas no Brasil. Essas desigualdades e também os impactos da crise foram acentuados pela negligência e pela banalização com as quais a situação foi conduzida no país.

Quando um país é atingido por uma doença viral, como a Covid-19, que tinha como características a letalidade e a alta transmissibilidade, a melhor maneira de enfrentar a crise é com investimento em políticas públicas e na ciência para apoiar a produção de vacinas específicas. Em vez disso, o que acompanhamos foi a situação sendo conduzida com irresponsabilidade e banalização, com o adoecimento e as mortes sendo tratados com naturalização e desrespeito.

Mas qual a relação desse aspecto histórico com o documentário? A Covid-19 atingiu todas as pessoas, mas o fez de maneiras diferentes. Pessoas em situação de vulnerabilidade e que não tinham condições de isolamento, como era orientado, foram atingidas de maneiras mais severas, aumentando a possibilidade de infecção pelo novo coronavírus. Além disso, sem vacina para proteção coletiva, o vírus circulou por mais tempo, expondo as pessoas ao impacto biológico, ou seja, ao adoecimento pela Covid-19, e aos impactos sociais, com a perda de trabalho e renda. O impacto, com isso, foi gigante. Além das mortes, da crise nos serviços de saúde e dos adoecimentos, tivemos que lidar com o aumento das iniquidades em saúde, a fome e a miséria. Sabemos que um país está em situação de miséria e de negligência do Estado quando falta comida no prato do povo, como foi observado no cenário brasileiro.

A falta de políticas públicas para enfrentar essa situação impulsionou o MTST a organizar dezenas de Cozinhas Solidárias, distribuindo almoços gratuitos por todo o país. Quem se beneficiava com as entregas, por vezes, ficava estarrecido com tamanha sensibilidade. O documentário, por sua vez, mostra a organização do grupo, sobretudo das protagonistas, para preparar a refeição distribuída às pessoas do movimento que vieram de diversas partes do país para a posse presidencial, sendo este o conjunto das últimas sequências de cenas do documentário.

Três histórias atravessadas pela luta e pela solidariedade

Movimentos sociais que alimentam a democracia

Esse é um trabalho que se faz com organização e preparação logística, mas não somente. Outros ingredientes indispensáveis, que as protagonistas demonstram ter em doses suficientes para diversas outras refeições que poderiam preparar, são a solidariedade e o desejo de fazer o bem, que, por sinal, estiveram ausentes no governo Bolsonaro que ficou conhecido pela necropolítica.

Quero destacar a total convicção com a qual os diretores conduzem as filmagens e o quanto o roteiro e o instrumento de levantamento de informações proporcionaram um resultado rico em cenas, histórias de vida e uma projeção para um futuro com mais qualidade de vida e valorização da democracia e dos movimentos sociais. Mais do que isso, quero destacar, até no sentido de agradecer aos mesmos diretores, por abordarem a Covid-19 e o período necrótico que o país viveu, que impactou, de diversas formas, a vida das pessoas. No documentário, eles lançam a lente para a questão da fome, mas não apenas para evidenciar a miséria e a questão da vulnerabilização social, que são assuntos extremamente relevantes, mas para, com sensibilidade, resgatar uma qualidade que é muito comum no povo brasileiro e é muito perceptível quando o país atravessa qualquer tipo de crise: a solidariedade. Assim, o mesmo reconhecimento é feito às mulheres que permitiram que conhecêssemos o MTST por meio da vida e do trabalho que realizam.

Então, essa produção funciona como um dispositivo extremamente relevante para mostrar o quanto, com as nossas forças e com a nossa união, a gente é capaz de salvar vidas, de levar esperança a todas as pessoas que já perderam, pela falta de políticas públicas, presença de Estado e outras questões, suas perspectivas de vida e seu desejo de viver.

Nos créditos finais, além da produção revelar informações muito positivas acerca das três protagonistas, ela faz essa apresentação na forma de texto sobre uma imagem bastante emblemática: o foco em uma panela de feijão em fervura, um alimento considerado básico na comida brasileira. Portanto, a panela cheia é para mostrar que o povo brasileiro é assim: fica feliz quando tem refeição e, quando tem, gosta de dividir. E isso se faz presente, sobretudo, em comunidades e grupos marcados pela necessidade de superação e apoio uns aos outros.

A produção chega aos cinemas brasileiros no dia 3 de setembro, com distribuição da Descoloniza Filmes. Recomendo fortemente que você assista ao documentário e reivindique, em sua cidade, caso não esteja disponível.

A força de quem luta e acredita.

FICHA TÉCNICA

  • Direção: Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel
  • Distribuição: Descoloniza Filmes
  • Produção Executiva: Marcos Nepomuceno, Pedro Charbel e Evelyne Lessa 
  • Direção de Fotografia: André Hawk
  • Colaboração: Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)
  • Montagem: Isabelle Araújo e Daniel Garcia 
  • Roteiro de Montagem: Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel
  • Colorização: Saulo Silva e Claudia Daher
  • Música Original: Daniel Simitan
  • Supervisão de Som e Mixagem: Felipy Andrade (A3pS) 
  • Edição de Ambiências: Rodrigo Andrade
  • Som e Microfonação: André Ribeiro
  • Assistente de Edição de Ambiências: Christian S. de Macedo
  • Design Gráfico: Thiago Rocha Ribeiro
  • Efeitos Visuais: Brenda Ximenes

Festivais e Prêmios de “Não Existe Almoço Grátis”

27º ForumdocBH – Mostra Contemporânea Brasileira (novembro, 2023)

56º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro – Mostra Brasília (dezembro, 2023)

  • Melhor Filme pelo Júri Popular
  • Menção Honrosa do Júri Oficial

13ª Mostra Ecofalante (maio a novembro, 2024)

  • Melhor Filme pelo Júri Popular

13ª Olhar de Cinema – Mostra Foco (junho, 2024)

31º Festival de Cinema de Vitória – Competitiva Nacional (julho, 2024)

  • Menção Honrosa do Júri Oficial

26º Festival Kinoarte de Cinema (outubro, 2024)

04º Citronela Doc – Festival de Documentários de Ilhabela (novembro, 2024)

21ª Mostra do Filme Livre (janeiro, 2025)

  • Prêmio Destaque Mostra do Filme Livre

10º Festival Internacional de Cinema Socioambiental Planeta.doc (dezembro, 2025)

Conheça os diretores de “Não Existe Almoço Grátis”

MARCOS NEPOMUCENO

Diretor, produtor e jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seu trabalho no cinema documental investiga a realidade brasileira, com foco em território, memória, identidade, cultura popular, pertencimento comunitário e transformação social. Atuou como primeiro-assistente de direção em produções da TV Globo e do Globoplay, como Babilônia, Rock Story, Segundo Sol, Desalma e Encantados. Em 2022, fundou a produtora independente Filmes da Terra, dedicada ao desenvolvimento de projetos documentais e narrativas autorais voltadas à diversidade cultural brasileira. Seu primeiro longa-metragem, Não Existe Almoço Grátis (2023), codirigido com Pedro Charbel, acompanha lideranças femininas do MTST durante a posse presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva. Atualmente, finaliza o longa documental Um Dedo Acima do Chão e dirigiu o especial documental Dominguinho (TV Globo, 2026) e três temporadas da série Tributo (TV Globo, 2024, 2025 e 2026).

PEDRO CHARBEL

Mestre em Sociologia e graduado em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP). Com atuação em direitos humanos e justiça social, codirigiu com Marcos Nepomuceno seu primeiro filme, Não Existe Almoço Grátis (2023). Militante do MTST, coordena o projeto Cinema Sem-Teto, voltado à democratização do acesso ao cinema brasileiro nas periferias. Em 2023, fundou a produtora Urupê Filmes e, como produtor, roteirista e diretor, desenvolve o documentário Rota de Mudança, vencedor do prêmio de Melhor Pitching no FomentaCine 2025, do Cine Brasília, e o curta de ficção No Mar Também Criamos Raízes, em codireção com Gizele Martins. Também atua como curador e coordena a Aliança Chega de Soja, coalizão de movimentos e organizações voltada ao enfrentamento do avanço da monocultura sobre a Amazônia e o Cerrado. É editor-chefe da revista socioambiental Jatobá, da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco.

Entre em contato com o autor: [email protected]

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