Clima
--°C
Manaus, AM

Festival de Cannes 2026: história, protestos, destaques e importância social

Festival de Cannes 2026 reforça o papel do cinema como espaço de arte, crítica social, representatividade e projeção internacional de filmes e artistas

Festival de Cannes 2026: história, protestos, destaques e importância social
Festival de Cannes 2026: história, protestos, destaques e importância social (Foto: Reprodução/Festival de Cannes)

Para um filme se tornar um sucesso, ele precisa de bons roteiros, um bom elenco, boa direção, mas também de financiamento adequado. Aliás, estamos falando de um segmento de arte que funciona como dispositivo educativo, de entretenimento e também de reflexão social e cultural, e a valorização dessas produções é fundamental para o fortalecimento do cinema enquanto expressão artística e cultural. Além disso, os filmes também precisam de espaços de divulgação para que possam alcançar o maior número possível de público. Portanto, os festivais e as premiações também são importantes.

Os festivais são momentos em que ocorrem exibições de filmes, e isso já é um ponto muito considerável. Esses eventos funcionam como uma vitrine para as produções no mundo. Ainda que muitos festivais sejam de acesso restrito, também em razão da transmissão e da dinâmica própria desses eventos, eles possuem grande importância para a circulação das obras, para a crítica especializada e para o reconhecimento internacional das produções.

LEIA TAMBÉM: Dicas de Filmes: dois clássicos e um lançamento para maratonar em maio

Oportunamente, os festivais também realizam premiações para os filmes exibidos, além de conceder outros prêmios, como melhor direção, roteiro e elenco. Para isso, há uma equipe previamente formada responsável por decidir os vencedores das categorias. É sempre emocionante lembrar o momento em que o filme brasileiro Ainda Estou Aqui conquistou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza 2024.

As premiações também são importantes, pois consagram os filmes e os impulsionam comercialmente. Ainda que o público não concorde com uma vitória ou outra, torça por um filme e tenha suas expectativas frustradas, a premiação desperta interesse, curiosidade e amplia a visibilidade da obra. Saber que uma produção foi indicada ou saiu vencedora em determinada premiação desperta o interesse das pessoas.

Um exemplo recente ocorreu com o filme “Ainda Estou Aqui”. A atriz Fernanda Torres conquistou o prêmio de Melhor Atriz em Drama no Globo de Ouro, superando nomes consagrados, como Kate Winslet (Lee), Tilda Swinton (O Quarto ao Lado) e Nicole Kidman (Babygirl), e também recebeu uma indicação ao Oscar na categoria de melhor atriz. Já o filme conquistou uma indicação na categoria de Melhor Filme, feito inédito para uma produção brasileira, além de vencer o Oscar na categoria de Melhor Filme Internacional. Esses destaques ocasionaram a ampliação das sessões de exibição do longa, além de seu retorno às salas de cinema mesmo após o encerramento do período regular em cartaz. Isso demonstra o interesse do público, o reconhecimento cultural da obra e a valorização do cinema enquanto expressão artística e social. É grande o impacto que as premiações exercem sobre as produções.

Fernanda Torres exibe o Globo de Ouro de Melhor Atriz Drama, 2025
(Foto: Divulgação/Globo de Ouro)

O Festival de Cannes é um dos eventos de cinema mais importantes e prestigiados do mundo. Ele acontece anualmente em Cannes e reúne cineastas, atrizes, atores, diretores, produtores, jornalistas e críticos de vários países. Originalmente, o festival teria sua primeira edição em 1939, mas o início da Segunda Guerra Mundial interrompeu os planos. Assim, o Festival de Cannes aconteceu oficialmente pela primeira vez em 1946, tornando-se um dos eventos cinematográficos mais importantes do mundo, ao lado do Festival Internacional de Cinema de Veneza, o mais antigo, criado em 1932; do Festival Internacional de Cinema de Berlim, criado em 1951; do Festival de Cinema de Nova York, fundado em 1963; e do Festival de Cinema de Sundance, um dos mais recentes – criado em 1978 como Festival de Cinema dos EUA, e que, em 1985, teve a transição para o nome atual.

O principal prêmio do festival é a Palma de Ouro, concedida ao melhor filme da competição oficial. O prêmio é entregue, normalmente, ao produtor responsável pelo filme.

O Festival de Cannes é fundamental para o cinema mundial, pois destaca, revela e consolida grandes obras, diretores e atuações. Ao longo de sua história, passaram pelo festival cineastas como Bob Fosse, Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e David Lynch, além de brasileiros como Lima Barreto, que conquistou o primeiro prêmio do Brasil em Cannes por “O Cangaceiro” (1953), Anselmo Duarte (premiado por “O Pagador de Promessas”, 1962), Glauber Rocha, que competiu pela Palma de Ouro com “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969), Arnaldo Jabor, que competiu com “Eu Sei que Vou Te Amar” (1986), e Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (“Bacurau”, 2019). “Bacurau” conquistou o Prêmio do Júri em Cannes em 2019.

Mais recentemente, Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho ganharam os prêmios de melhor ator e melhor diretor, respectivamente, por “O Agente Secreto” (2025). À época, a energia na estreia foi contagiante: a equipe do filme fez festa durante o caminho para o festival, com direito a dança de frevo.

O ator Wagner Moura em cena de “O Agente Secreto”. (Foto: Divulgação)

Como o Festival de Cannes acontece tradicionalmente em maio de cada ano, muito antes de premiações como o Oscar, British Academy of Film and Television Arts (BAFTA) e o Globo de Ouro, raramente o vencedor da Palma de Ouro coincide com o vencedor do Oscar, por exemplo, de melhor filme. Os últimos vencedores em Cannes foram “Foi Apenas um Acidente” (2025), “Anora” (2024), “Anatomia de uma Queda” (2023) e “Triângulo da Tristeza” (2022). Desses, apenas “Anora” venceu o Oscar de melhor filme. Apesar disso, Cannes frequentemente antecipa tendências da temporada de premiações, revelando futuros indicados e ampliando a visibilidade de filmes, atores, atrizes, diretores e produtores.

Outra característica importante do festival é valorizar não apenas grandes produções comerciais, mas também filmes autorais, independentes e cult, ampliando o espaço para obras inovadoras e cinematografias de diferentes países.

Tapete vermelho, protestos e posicionamentos políticos em Cannes

O Festival de Cannes também conta com o tradicional tapete vermelho. Essa é uma oportunidade para que as pessoas convidadas sejam vistas pelo mundo inteiro e fotografadas por jornalistas que irão divulgar as obras e os trabalhos que impulsionaram os convites para que essas personalidades pudessem estar em Cannes.

O Festival também é conhecido por estabelecer regras rígidas com relação ao vestuário das pessoas convidadas, principalmente para mulheres. Essas exigências já motivaram protestos e manifestações dentro do próprio evento. Um dos episódios mais lembrados envolve a atriz Julia Roberts, que, em 2016, tirou os sapatos como forma de protesto contra as exigências relacionadas ao uso de salto alto no festival, visto que, em 2015, mulheres que estavam usando sapatos baixos foram impedidas de entrar em determinadas sessões do evento. Depois disso, outras atrizes, também foram fotografadas retirando os sapatos ao subir as famosas escadarias que dão acesso às sessões do Festival. Kristen Stewart, Cate Blanchett, Jennifer Lawrence e Isabelle Huppert também aderiram ao movimento.

É um tanto quanto excessivo que um festival de cinema se ocupe de regras tão específicas, visto que a maior importância deveria estar relacionada à visibilidade dos filmes que compõem a programação oficial do festival. Portanto, parece secundário que existam normas tão detalhadas sobre as roupas que as pessoas devem usar.

Dito isso, como o festival conta com bancadas de pessoas convidadas e ampla cobertura midiática internacional, muitas pessoas presentes também aproveitam esse espaço para manifestar reflexões sobre acontecimentos e contextos atuais. A guerra entre Israel e Palestina, por exemplo, não passou despercebida, visto que continua produzindo inúmeras vítimas civis.

É inegável que esses contextos também atravessam o cinema, sobretudo porque alguns artistas que se posicionam publicamente acabam enfrentando reações e dificuldades dentro da própria indústria cinematográfica. A atriz Susan Sarandon (Adoráveis ​​Mulheres), por exemplo, declarou ter enfrentado dificuldades para encontrar papéis no cinema após seus posicionamentos públicos sobre o conflito.

Nesse sentido, o ator espanhol Javier Bardem (Onde os Fracos Não Têm Vez) também fez um discurso relacionado à guerra durante o Festival de Cannes deste ano. Isso demonstra como a ocupação desse espaço para manifestações sobre aspectos políticos e sociais é significativa, pois o cinema, além de ser um segmento artístico, também possui importância política, cultural e educativa.

Este ano, já passaram pelo festival, entre atrizes, atores, produtores e modelos, Adriana Lima, Alicia Vikander, Bela Hadid, Cate Blanchett, Colman Domingo, Izabela Goulart, Julianne Moore, Michael Fassbender, Ron Howard, Salma Hayek, Sara Bernstein e um dos homenageados do ano, o ator John Travolta (Pulp Fiction).

Muito além do pôster: por que Cannes revive um filme tão atual?

Pôster oficial do 79º Festival de Cannes. (Foto: Divulgação/Festival de Cannes)

Este ano, o pôster oficial do Festival de Cannes homenageia o filme “Thelma & Louise”, dirigido por Ridley Scott e lançado em 1991. O filme foi exibido na 44ª edição do festival e, após a repercussão positiva em Cannes, recebeu indicações para diversos prêmios, como o Oscar e Globo de Ouro.

As personagens Thelma e Louise, interpretadas respectivamente por Geena Davis e Susan Sarandon, tornaram-se importantes por romperem barreiras impostas pelo machismo na sociedade. Além de serem amigas e cúmplices uma da outra, elas se fortalecem enquanto entram em uma jornada em busca de liberdade e sobrevivência, enfrentando as violências e opressões que atravessam suas vidas. Fazem isso aprendendo juntas, encorajando-se mutuamente e construindo uma relação marcada pela confiança e pelo afeto. Dessa forma, o filme é atual, mesmo com seus 35 anos de existência, devido as abordagens relacionadas ao machismo, violência contra as mulheres, desigualdade de gênero, liberdade feminina e representatividade.

A escolha do pôster é uma forma de homenagear o próprio filme e todas as pessoas envolvidas em sua produção, lembrando que o cinema se conecta com a realidade e com a história de vida das pessoas. Susan Sarandon, como já mencionado, assume posicionamentos públicos relacionados à atual guerra entre Israel e Palestina. Já Geena Davis se destaca por sua atuação em pautas ligadas à justiça social, especialmente no que diz respeito à representatividade, igualdade de gênero e combate a estereótipos na indústria do entretenimento.

Dessa forma, o cartaz, que já era simbólico desde o lançamento do filme, é rememorado sobretudo porque continua dialogando com temas bastante atuais. A trajetória das personagens se conecta a debates sobre liberdade, violência contra as mulheres, representatividade, justiça social e até mesmo à necessidade de empatia diante de conflitos e contextos contemporâneos.

Cannes 2026: júri e filmes da seleção oficial

A edição de 2026 do Festival de Cannes teve início no dia 12 de maio e seguirá até o dia 23.

Para analisar e escolher os filmes e profissionais que receberão os principais prêmios, o Festival conta com um júri especializado, que, este ano, está equilibrado entre o cinema autoral independente e grandes nomes do cinema internacional. Esta é a composição completa do júri de 2026:

  • Park Chan-wook (Presidente): Diretor, roteirista e produtor (Coreia do Sul)
  • Chloé Zhao: Diretora, roteirista e editora (China)
  • Demi Moore: Atriz e produtora (EUA)
  • Diego Céspedes: Diretor e roteirista (Chile)
  • Isaach De Bankolé: Ator (Costa do Marfim)
  • Laura Wandel: Diretora e roteirista (Bélgica)
  • Paul Laverty: Roteirista (Escócia)
  • Ruth Negga: Atriz e produtora (Irlanda/Etiópia)
  • Stellan Skarsgård: Ator (Suécia)
O júri do 79º Festival de Cannes. (Foto: Reprodução/Festival de Cannes)

Entre as produções, os destaques são a coprodução brasileira da mostra Un Certain Regard, “Elefantes na Névoa”, de Abinash Bikram Shah, e o novo filme de Pedro Almodóvar, “Amarga Navidad”, na competição pela Palma de Ouro.

A lista oficial do Festival de Cannes é dividida entre “Em Competição”, categoria dos filmes que disputam a Palma de Ouro – principal prêmio do festival; “Fora de Competição”, composta por produções de destaque que não concorrem ao prêmio principal; “Exibições Especiais”, selecionadas por sua relevância artística, cultural ou social; e “Cannes Première”, seção criada recentemente para apresentar filmes autorais reconhecidos pelo prestígio artístico.

Veja alguns filmes da seleção oficial do Festival de Cannes 2026.

Em Competição

  • “Paper Tiger”, de James Gray
  • “A Woman’s Life”, de Charline Bourgeois-Taquet
  • “All of a Sudden”, de Ryusuke Hamaguchi
  • “Amarga Navidad”, de Pedro Almodóvar
  • “Coward”, de Lukas Dhont
  • “Fatherland”, de Paweł Pawlikowski
  • “Fjord”, de Cristian Mungiu
  • “Garance” Jeanne Herry
  • “Gentle Monster”, de Marie Kreutzer
  • “Histoire de la nuit”, de Léa Mysius
  • “Hope”, de Na Hong-Jin
  • “La Bola Negra”, de Javier Ambrossi e Javier Calvo
  • “Minotaur”, de Andrey Zvyagintsev
  • “Moulin”, de Laszlo Nemes
  • “Nagi Notes”, de Koji Fukada
  • “Notre salut”, de Emmanuel Marre
  • “Parallel Tales”, de Asghar Farhadi
  • “Sheep in the Box”, de Hirokazu Kore-eda
  • “The Beloved”, de Rodrigo Sorogoyen
  • “The Dreamed Adventure”, de Valeska Grisebach
  • “The Man I Love”, de Ira Sachs
  • “The Unknown”, de Arthur Harrari

Fora de Competição

  • “De Gaulle: L’Age de Fer”, de Antonin Baudry
  • “Diamond”, de Andy Garcia
  • “Her Private Hell”, de Nicolas Winding Refn
  • “Karma”, de Guillaume Canet
  • “Objet du deli”, de Agnes Jaoui

Exibições Especiais

  • “Avedon”, de Ron Howard
  • “John Lennon: The Last Interview”, de Steven Soderbergh
  • “Les Matins Merveilleux”, de Avril Besson
  • “Les Survivants du Che”, de Christophe Réveille

Cannes Premiere

  • “Kokurojo: The Samurai and the Prisoner”, de Kiyoshi Kurosawa
  • “Propeller One-Way Night Coach”, de John Travolta

Os vencedores serão anunciados no encerramento do Festival, em 23 de maio de 2026.

Fique por dentro de tudo o que rola na cena cultural e de entretenimento do Amazonas — shows, estreias, exposições, festivais e muito mais.

Leia mais

Rolê Cultural
Resumo sobre Privacidade

Este site usa cookies para que possamos fornecer a você a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você acha mais interessantes e úteis.

Saiba mais lendo nossa Política de Privacidade