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O despertar da vida: conheça “Meu Nome é Agneta”, um filme sobre uma trajetória de mudança e autodescoberta

O despertar da vida: conheça “Meu Nome é Agneta”, um filme sobre uma trajetória de mudança e autodescoberta
O despertar da vida: conheça “Meu Nome é Agneta”, um filme sobre uma trajetória de mudança e autodescoberta Foto: Ulrich Lebeuf/Netflix/Divulgação)

Um convite ao olhar para si: o início da jornada de Agneta

Se alguém te dissesse “mostre a sua vida”, você estaria preparado? Essa é uma provocação que Einar faz a Agneta. E não, não se trata da curiosidade de quem quer saber da vida do outro sem se importar. A provocação existe para que a protagonista de “Meu Nome é Agneta” (Je m’appelle Agneta; 2026) olhe para a própria vida, se conheça e se aceite.

O filme, que chegou à Netflix no final de abril de 2026, já aviso aos colecionadores e caçadores de frases marcantes, é uma produção cheia de diálogos sinceros, diretos e sensíveis, que aproximam o espectador da narrativa e dos personagens, assim como de si próprio.

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Agneta, interpretada pela excelente Eva Melander, é uma mulher de aproximadamente 50 anos e mora na Suécia. Os filhos já saíram de casa, e o marido encontrou sentido para viver realizando passeios de bicicleta. A vida de Agneta parece caminhar para a estagnação, até que a demissão da empresa na qual trabalha há muitos anos muda tudo. Desempregada, mas já à procura de um novo trabalho, ela vê um anúncio em um jornal e se candidata. A vaga é para cuidar de um homem chamado Einar (Claes Månsson, também excelente no papel), na França. Esse é um lugar com o qual a personagem já mantinha proximidade. Apaixonada pelo país sem nunca ter estado lá, a comida e os programas diários de TV e os canais da internet que consome são todos franceses.

Não demora muito, e a mensagem de confirmação da vaga chega. Mesmo sem saber falar francês, ela decide partir temporariamente, deixando o marido e a casa.

Entre o estranhamento e a descoberta

Ao conhecer o local de trabalho e as pessoas, Agneta fica assustada. O anúncio estava incompleto e ocultava a idade de Einar, um senhor octogenário, aparentemente rabugento e que se recusa a receber ajuda. A partir daqui, o filme reserva sequências hilárias e interessantes, à medida que Agneta conhece a casa, a rotina das pessoas que passam por ela e se aproxima de Einar.

É grande o desejo de citar todas as cenas possíveis, mas devo evitar antecipações para não estragar surpresas. Algumas, porém, devem ser destacadas para demonstrar que o filme transita entre a comédia e o drama.

As cenas são diversas: Agneta se delicia com fatias e mais fatias de queijo, como se nunca tivesse experimentado antes. Em uma cena em particular, ela vai pendurar roupas no varal, mas o vento o suspende, tornando inviável alcançar a altura necessária para estender as peças. Há também a cena em que lava um objeto fálico; outra em que Einar pensa que ela vai beijá-lo no sofá; e ainda aquela em que tenta colocar uma roupa íntima feita de pérolas no pescoço, imaginando se tratar de um colar. E, claro, quando é provocada a mostrar a própria vida e estimulada a fazer um monólogo de apresentação, ela se expressa por gestos enquanto fala. Apesar de engraçada, essa cena, em particular, revela o distanciamento de si própria. Essas cenas valem para mostrar que a protagonista está em contato com outras vidas e outras formas de viver. Aparentemente, sua rotina estava programada em uma lógica repetitiva entre casa e trabalho que, apesar de socialmente esperada para uma pessoa adulta, a limitava e, inclusive, construía uma outra versão de Agneta: divertida, mas com essas formas de expressão abafadas pelo próprio contexto de vida.

O encontro entre os dois personagens também revela diferenças culturais e de perspectivas. O francês critica a comida que Agneta serve e sempre a questiona sobre temas para os quais ela ainda não havia parado para refletir.

Ela se vê desconcertada quando é provocada a olhar para a própria vida, talvez porque tenha passado boa parte dela sendo controlada pelo marido e pela rotina de trabalho, que acabam por redefinir sua forma de existir e influenciam a organização da vida pessoal. Não raramente, isso leva a uma vida condicionada e sem perspectivas. Aliás, parte desse assunto é uma discussão bastante atual e justa no Brasil, acerca da dificuldade de equilibrar vida pessoal e profissional.

Se eu tivesse que definir a protagonista em uma palavra, seria: corajosa. Aos 49 anos de idade, ela decide viver a vida como nunca viveu. Isso não é pouco; aliás, requer desprendimento e a iniciativa de olhar para si mesma. A decisão parte dela, mas ela não está sozinha: Einar, um octogenário cheio de vigor, participa ativamente da vida de Agneta, sendo um amigo provocador, sensível e fundamental em seu processo de transformação. Nesse sentido, o filme também mostra a importância das relações e redes de apoio. Relações saudáveis podem contribuir para o caminho de busca da felicidade e da realização pessoal.

Agneta, interpretada por Eva Melander, é uma mulher de aproximadamente 50 anos e mora na Suécia (Foto: Divulgação)

O vestido lilás e a liberdade de ser quem se é

Com o avançar da história, Einar presenteia, de um jeito inusitado, Agneta com um vestido lilás que ela usa por horas e dias consecutivos. O vestido, roupa que ela não usaria em tempo pregresso, se adequa ao corpo, que, a esta altura, já não é só físico, mas um corpo que é memória, identidade e presença; um corpo que já foi perdoado, abraçado e aceito. As cenas do vestido não são sobre roupas – apenas -, mas sobre o encontro entre o desejo e a convicção de se expressar sendo quem se é de verdade. Passamos a odiar o nosso corpo por não corresponder aos que são idealizados e socialmente valorizados. Aliás, em tempos de excesso de intervenções estéticas, esse é um assunto necessário. Trata-se de uma liberdade em relação a todas as amarras, inclusive àquilo que é construído para agradar aos outros.

Somos constantemente submetidos a arestas sociais. Expectativas são criadas e papéis são impostos como forma de manipular e exercer controle sobre alguém. Além disso, há sempre a cobrança de agradar. Agneta se despede disso para ser ela mesma e, ao fazê-lo, é acusada de não ser mais o que sempre foi. Essa é exatamente a afirmação da liberdade: quando se deixa de ser alguém aos olhos dos outros para ser aquilo que verdadeiramente é. “Você está louca?”, ouve Agneta, a certa altura da narrativa. Até mesmo essa frase funciona como dispositivo de reflexão. Quando se faz algo inesperado ou contrário ao que é imposto pela sociedade, somos imediatamente questionados, desacreditados e vistos como inadequados.

A proposta inicial do trabalho de Agneta era cuidar de Einar, mas ela se permitiu viver uma jornada pessoal de descobertas e autoconhecimento: um misto de alegria e tristeza, sonhos e recomeços.

O filme tem uma história trivial, e o segredo para torná-la acessível e convincente, despertando expressiva aproximação e admiração pelos personagens, está no roteiro escrito com total propriedade e na entrega absoluta de Eva e Claes. Sem dúvida, dois grandes atores, sem qualquer vaidade em cena, mostrando a vida como ela realmente é.

Para ficar ainda melhor, o filme também mostra cenários incríveis, tanto pelas lindas paisagens abertas, com campos floridos, quanto pelas ruas aconchegantes e pelo interior da casa de Einar, que guarda muitos objetos, adornos e particularidades. Há também um palco, que funciona como dispositivo para abrir a imaginação, permitindo mostrar um pouco de si e conhecer um pouco de quem se apresenta, percebendo, também, outras possibilidades de existir.

Agneta consegue superar seus desafios e, além disso, mostrar, se não para o mundo, ao menos para si mesma, quem é Agneta. E esse é o sentido da vida. Ela ensina que é possível ser amado com a idade e o corpo que se tem e no lugar em que se está; amado, inclusive, com amor-próprio. E, acima de tudo, ser feliz. Além disso, ensina que a vida começa agora: começa quando a gente decide viver.

Se você tem uma lista de filmes para assistir, sugiro que essa produção ocupe um dos primeiros lugares dela.

FICHA TÉCNICA:

  • Suécia; 2026
  • Gênero: comédia, drama
  • Direção: Johanna Runevad
  • Produtor: Anna Sofia Mörck, Mia Uddgren
  • Elenco: Eva Melander, Claes Månsson, Måns Molin, Jérémie Covillault, Anne-Marie Ponsot, Björn Kjellman

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